Sexta-feira, 15 de Fevereiro de 2008
NAVEGAR À BOLINA

O Sr. João Silva, no seu blogue de BarcoàsTaipas , acusa-me de revelar uma pretensa superioridade moral e intelectual no post em que lhe respondi sobre matérias por ele tratadas. Embora não me reveja na acusação, peço-lhe desculpas se ele deduziu isso do que eu escrevi.

 

Repostas as coisas no seu devido lugar, vamos ao mais importante.

 

Caso Luiz Pacheco: o João Silva faz um ataque ao homem e mantém o que começou por afirmar . Aceita-o como escritor, mas rejeita-o como pessoa e acha que o PCP devia seguir-lhe os passos. Ainda bem que o PCP seguiu por outro caminho, é o que tenho a dizer.

 

Caso General Vasco Gonçalves: eu repito o que escrevi - o companheiro Vasco nunca esteve filiado em partido algum. Ele o disse e nenhum partido o desmentiu com factos. Presunção e água benta cada um toma a que quer. Se o João Silva pode provar o contrário, não com teses exdrúxulas mas com factos, serei o primeiro a dar a mão à palmatória. Se o não fizer, quem mente não sou eu, mas ele.

 

Depois, na ânsia de carrear artilharia pesada para sustento da sua campanha anti-Vasco Gonçalves, o João Silva deita mão, imagine-se ao quê?, ao programa do V Governo Provisório, de que o general foi primeiro-ministro. Ò João o que você invoca como argumento é a caracterização da situação do País em 1975, um retrato que serve de introdução e de justificação para as políticas que na óptica do general eram necessárias e inadiáveis, mas não eram as medidas! Sem pretender ir mais longe por agora, apenas refiro cinco ou seis factos incontroversos que ninguém pode roubar aos governos de Vasco Gonçalves: a introdução do salário mínimo nacional, o direito a férias, o direito à greve e à contratação colectiva, o direito aos subsídios de férias e de Natal.  Com isso quem beneficiou foi o povo trabalhador, que viu o fruto do trabalho ser repartido de forma mais justa.

 

E se isso em si mesmo, para mim, é um elemento positivo que abona a favor da governação de Vasco Gonçalves, foi conseguido sem desequilíbrio das contas públicas, o que surpreendeu a OCDE e o FMI, que tendem a desvalorizar o trabalho em benefício do capital e nunca esconderam a antipatia em relação à Revolução de Abril.

 

Eu sei que muita gente prefere contas públicas equilibradas, défices zero, etc. e tal ainda que isso implique salários de miséria, reformas de miséria, desemprego e pobreza. Mas eu não sou desses, meu caro João. Pode dizer que durante os governos de Vasco Gonçalves e de outros que o antecederam aconteceram coisas que não deviam ter acontecido, abusos se quiser, mas não pode negar que houve avanço social e que a riqueza foi melhor repartida, porque a contabilidade nacional está aí para o demonstrar. Se dizer isto é exemplo de "superioridade intelectual" sempre lhe direi que é apenas a verdade fria dos números que não pode ser contestada, nem ignorada, embora isso conviesse a muita gente.

 

25 de Novembro: repito - a história está por fazer. Há relatos, há interpretações a partir desses relatos individuais ou colectivos, mas falta o tempo, porque só o tempo vai fazer a verdade vir à superfície. Quando contrapus as palavras de Jaime Neves às do Cónego Melo, foi para evidenciar as contradições, os cinzentos, a penumbra que envolvem os alegados factos. Muitos dos protagonistas deles estão vivos e dão a sua versão, mas que não passa disso mesmo, da versão de cada um que é simultaneamente a versão de um co-participante, de um co-interessado. No direito, meu caro João, o testemunho de um co-arguido vale muito pouco ou mesmo nada e até lhe cabe o privilégio de poder mentir para sua defesa. Veja o que ainda hoje acontece com o assinato do rei D. Carlos. Cem anos: ainda se procura a verdade.

 

Olhe eu também podia invocar a minha versão do que presenciei e daquilo em que participei. Estava no local certo à hora certa, pode crer. Se o fizesse não faltaria que visse nisso o chamado argumento da autoridade, mas eu juro-lhe que também tenho uma visão pessoal dos acontecimentos a partir desse ângulo, como é óbvio. Por isso, deixemos que o distanciamento leve ao apuramento do que se passou, quem iniciou e quem foram os mandantes políticos do que poderia ter sido um momento grave da nossa história.

 

O João diz que os pára-quedistas se sublevaram e isso é factual. Mas a questão que interessa é quem colocou a banana onde eles escorregaram e aí é que as declarações de Jaime Neves são importantes, percebeu. Porque o que a estória pequenina que se vai escrevendo para a opinião pública é que em 25 de Novembro os militares do Ralis e de outras unidades desencadearam operações para tomar o poder, ocupando a RTP e por aí fora. E se isso não foi bem assim? E se os páras foram enganados e atraídos a uma cilada, quem esteve por trás disso e com que intenções. Sabe do que Jaime Neves se lamenta - de não o terem deixado  "dar cabo dos comunas", como era sua intenção, o que deixa perceber que os sectores mais reaccionários da política portuguesa estavam na sombra do golpe e que o golpe tinha objectivos. e se tinha objectivos, isso significa que não foi uma mera reacção à aventura dos pára-quedistas , percebe?

 

Finalmente, João, você reivindica o "direito à especulação". Como procurei demonstrar o que eu digo sobre o 25 de Novembro não sendo a minha especulação é o filme dos acontecimentos analisado a partir do meu lugar e não vale mais do que isso. Por isso eu não tenho uma opinião firme e inabalável.

 

De Otelo, Mário Soares e muitos outros protagonistas da Revolução do 25 de Abril de 194 a história se encarregará a seu tempo de os colocar no lugar certo. Quanto a Álvaro Cunhal apenas lembro o impressionante funeral e a iniludível participação popular e nacional, apesar das campanhas contra ele. O Povo, caro João, sabe distinguir o trigo do joio. Foi assim ao longo da nossa história colectiva, em momentos decisivos: sabe quem são os seus, mas depois deixa-se iludir e aposta em quem o engana.



publicado por org. pcp-taipas às 14:58
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2 comentários:
De Nascido em 1950 a 18 de Fevereiro de 2008 às 13:45
Esse menino de Barco não sabe o que diz.
Nasceu em berço de ouro.
Nasceu a poder dizer aquilo que quer e que lhe apetece e não sabe agradecer a quem deve.
Apelo a que não gastem mais espaço neste e noutros blogs a responder a este menino.
19 aninhos......
A querer ensinar o Sr Candido Capela Dias sobre o que foi o 25 de Abril!!!!!!!!!
Onde terá ido buscar tamanha estupidez?


De Rui Melo a 25 de Março de 2009 às 19:46
Os comandos que se sublevaram no 25/11 tiveram ordens de partidos comunistas para tomar conta do poder. Esta é a explicação mais lógica para tudo o que se passou e não uma mirabolante teoria de conspiração...

Provavelmente aqueles que deram a ordem e aqueles que as receberam pricipitaram-se e acabaram por retirar as hipoteses a outros da mesma ideologia de fazer uma tomada de poder mais agresiva.

Actualmente começo a pensar que o melhor era mesmo ter havido uma guerra civil para limpar bem a procaria que surgiu com o 25/4. Provavelmente o que se passou com a descolonização teria sido evitado ainda a tempo.


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